Por Elaine Frere
Artista circense
A lembrança que tenho desse espaço, talvez nem corresponda a realidade, é mais provavel que corresponda as sensações que tive. O ano era 1989, talvez um ou dois anos mais… o fato é que estive pouquíssimas vezes no Café dos Artistas e sequer tenho certeza dos nomes das pessoas que me acompanhavam.
Na época estava às voltas com meu primeiro trabalho, numa Cia. que tinha a pretensão de unir o circo ao teatro na linguagem cênica. Estávamos a procura de chicotes, e a informação que tínhamos era a de que no Café dos Artistas encontraríamos. Aliás, era lá o único lugar possivel para encontrarmos equipamentos de circo.Todos feitos artesanalmente.
Os companheiros da época eram Fernando Sampaio, Marcos Loureiro, Hugo Possolo, Regina Lopes… é bem possível que estivesse junto de um deles nessa primeira visita ao Café, mas não sei precisar. O fato, é que corria o boato de que o Café era o espaço dos artistas tradicionais e que o Sr. Novaes não costumava ser muito gentil, especialmente com artistas provenientes de Escolas de Circo, como era o nosso caso.
Eu também não tinha por hábito circular pelo centro de São Paulo, criada e crescida nos bairros tranquilos da Zona Leste. A aventura sensorial começava já pelo fato de estar caminhando por locais, aparentemente, inóspitos. O burburinho crescia, as pessoas caminhavam rápidas, era preciso apressar o passo… até que adentrei o tão comentado “Café dos Artistas”.
Diferente de tudo quanto eu imaginava. Um oásis no meio daquele tumulto. Tinha pouca intensidade de luz. Reinavam o mistério e a magia próprios da origem cigana, caracteristicas que despertavam meu medo e desejo. O medo vinha das histórias que eu ouvia na infância a respeito do povo cigano, enraizadas até a alma, e o desejo vinha do fascínio que o circo exercia sobre mim.
Tinha cheiro… cheiro de coisa guardada, cheiro de coisa escondida, cheiro de segredo… um cheiro que só hoje sei definir… era cheiro de tradição!
Pelo fato de chamar-se “Café dos Artistas”, ingenuamente esperava ver algumas mesas e cadeiras, que não me lembro de ter visto, mas me lembro bem dos aparelhos de circo em exposição para venda e de como apreciei tudo aquilo. Por fim, fui apresentada ao Sr. Novaes, que foi muito gentil, contrariando as informações anteriores.
O Café dos Artistas foi referência para compra de aparelhos durante um longo tempo. Quando queríamos encontrar um dos Mestres que há tempos não víamos era também no Café que buscávamos notícias. Todos sabiam tudo, sobre todos.
Depois disso só me lembro do compromisso constante do Mestre Maranhão todas as segundas-feiras, quando terminávamos os ensaios e lá ia ele, todo alinhado com sua inseparável e invejada (segundo ele) botinha de “salto carrapeta”, para mais um encontro no Café dos Artistas